murillo-torelli

27/03/2025

Empréstimo do Lula: um populismo perigoso com o dinheiro dos trabalhadores

Em uma manobra que beira o populismo e desvirtua o propósito original de um dos maiores patrimônios dos trabalhadores brasileiros, o presidente Lula anunciou um novo tipo de crédito consignado: o “Empréstimo do Lula”.

A proposta permite que o trabalhador formal utilize até 10% do saldo como garantia para obter crédito com juros aparentemente mais baixos. Em apenas 48 horas, foram registradas 40 milhões de consultas para esse empréstimo.

A primeira impressão pode parecer de um alívio em um cenário de juros altíssimos e inflação galopante; porém, um olhar mais atento revela os riscos e as contradições da proposta.

Criado com o intuito de funcionar como uma poupança forçada, o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) foi concebido para amparar o trabalhador em situações de demissão e para evitar o consumo desenfreado do seu salário. Ao reservar uma parte do rendimento, o sistema visa proporcionar uma rede de segurança financeira e estimular a formação de uma reserva para tempos de crise. A utilização original do FGTS, portanto, é de caráter eminentemente protetivo, garantindo uma estabilidade mínima em um mercado de trabalho volátil.

Ao permitir que parte desse fundo, destinado a proteger o trabalhador, seja usado como garantia para um empréstimo, o governo cria uma distorção conceitual e prática. O FGTS, que deveria ser um recurso emergencial e uma proteção contra a instabilidade, passa a ser instrumentalizado como um meio de acesso ao crédito. Essa mudança representa uma verdadeira contradição: ao incentivar o endividamento dos trabalhadores, em um contexto de juros altos e inflação persistente, o governo se afasta do objetivo inicial do fundo e, de fato, contribui para um ciclo de vulnerabilidade financeira.

Não há dúvidas de que a iniciativa carrega um viés eleitoreiro. Em um momento de queda na popularidade e com as eleições de 2026 no horizonte, medidas como essa parecem destinadas a acalmar o nervosismo do eleitorado.

A escolha do nome “Empréstimo do Lula”, inclusive, reforça a imagem de um governo próximo do povo – ainda que, na realidade, os benefícios prometidos se mostrem ilusórios.

Gleisi Hoffmann não poupou esforços para destacar a “ajuda” do governo ao trabalhador formal, mas é preciso encarar a verdade: ao liberar o FGTS para fins de crédito, o verdadeiro beneficiado será o setor bancário.

Apesar das aparências de uma medida voltada para o alívio do trabalhador, o novo crédito consignado é, na prática, uma jogada que beneficia intensamente os bancos. Ao utilizar o FGTS como garantia, que, convenhamos, é uma reserva formada com o suor do trabalhador, os bancos adquirem uma segurança que lhes permite oferecer taxas “mais baixas”, mas que, ao mesmo tempo, assegura a eles uma margem de lucro sem precedentes.

Esse risco quase nulo na operação se traduz em juros que, embora pareçam vantajosos à primeira vista, acabam por perpetuar a lógica do endividamento, em que os trabalhadores se veem acorrentados a um sistema que privilegia os grandes conglomerados financeiros.

O “Empréstimo do Lula” é, na verdade, um contrassenso: ao transformar um fundo de proteção em uma ferramenta de estímulo ao consumo, o governo fragiliza a função original do FGTS.

Em um cenário de juros altíssimos e inflação persistente, essa manobra revela um caráter eleitoreiro, que coloca o interesse dos bancos acima da segurança e do bem-estar dos trabalhadores. Uma política que, em vez de fortalecer a economia e proteger o cidadão, camufla, em retórica populista, um modelo que, na prática, só contribui para aprofundar a desigualdade e a dependência do trabalhador frente ao sistema financeiro.

Por: Murillo Torelli, professor de Ciências Contábeis da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).|*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.| A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) foi eleita como a melhor instituição de educação privada do Estado de São Paulo em 2023, de acordo com o Ranking Universitário Folha 2023 (RUF). Segundo o ranking QS Latin America & The Caribbean Ranking, o Guia da Faculdade Quero Educação e Estadão, é também reconhecida entre as melhores instituições de ensino da América do Sul. Com mais de 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pela UPM contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.